O balanço do tempo
Leva meu rosto à chuva
Gotas tão finas em cortina
Roçam na pele encharcada
Na memória da minha carne
Vida se embaça e a claridade
Pelas frestas dos dedos
Do aceno de adeus que recebi
“E agora? Eu sou feliz?”
Sinto o peso da mão de Deus
Carícias escorrem nas costas
Meu olhar se fecha completamente
Ainda assim um campo
Hibiscos e Lírios
Uma estrada bifurcada
Meus pés sentem as raízes do mundo
O cheiro do barro me consome
Tudo parece tão tranquilo
Um grito racha o concreto
Pulo para não cair no buraco
Ao meu redor hibiscos e lírios
E os olhos negros de minha avó
“Eu sou feliz?”
Há uma estrada bifurcada
Por tempo ela correu acelerada
Criou filhos e marido
Fez remédio caseiro e meias de tricô
Rezou sempre ao bom pastor
Em uma cama de casal
Onde sonhava sozinha
“Eu sou feliz?”
Interrompe a irmã dela
Há uma estrada bifurcada
Por tempo ela correu acelerada
Compunha melodias em noites com o marido
Que abafou a música com bebida
Trocou o gosto de beijos
Tapando boca com licor
Mas logo chora minha tia
“Eu sou feliz?”
Há uma estrada bifurcada
Por tempo ela correu acelerada
Formou-se com honrarias
Países com forma de casa
Noivou-se com um português
Que lhe deu terras e anéis
Com ele colecionou joias e remédios
Estava indo abraçá-la
Quando paramos a escutar
O clamor de minha mãe
“Eu sou feliz?”
Ao lado dela primas e amigas
E do céu desceram Marias
Manchadas de sangue e solidão
Cantaram glória e aleluia
Com voz ofegante e garganta seca
A chuva bate em nossos rostos
Os dedos de Deus nos percorrendo
Cada vez mais ao longe as promessas
Antes com o teor de trovões
“Na saúde e na doença.
Na alegria e na tristeza”
Perguntas firmam as passadas
Nessa estrada bifurcada
Por onde todas nós corremos aceleradas
ANA CAROLINA FRANCISCO é uma artista multidisciplinar, escritora, diretora, roteirista e editora formada em Jornalismo pela PUC-Rio, com estudos em Cinema e Literatura na Universidade de Liverpool e Universidade da California, Los Angeles (UCLA). Atualmente, cursa pós-graduação em Escritas Performáticas na PUC-Rio. No cinema e teatro, trabalhou como assistente de direção ao lado de nomes como Emílio Domingos, João Falcão, Junior Vieira, Carla Bohler e Carla Faour. Colaborou no desenvolvimento de roteiros na produtora americana LD Entertainment, Tv Cultura, e atuou como editora em projetos na Globo. Em 2019, fundou um coletivo de estudos sobre gênero e literatura na PUC-Rio, promovendo aulas e oficinas gratuitas. Como diretora e roteirista, recebeu prêmios em festivais nacionais e internacionais. Seu curta documentário Cine Esperança recebeu o Prêmio de Melhor Filme na mostra Primeiros Quadros na 32ª edição do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro – Curta Cinema. Seu livro de poesias Corpos, Fendas e Fronteiras, explora questões de gênero e sexualidade, apresentado na FLIP, 2022, e na Bienal do Rio, 2023.